Para inaugurar, de fato, o blog - minha participação nele, mais especificamente - vou compartilhar com vocês uma reportagem literária que escrevi, mostrando a relação atualmente das pessoas que trabalham ao redor da Praça da Bandeira (ou que por algum motivo geralmente estão por lá perto) com a própria. O texto é um pouco extenso, então, se você não tiver paciência pra ler eu não o culpo. Da próxima eu desacelero meus dedos um pouco antes. Abraços.
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“Vocês tão precisando de alguma coisa?” disse o homem, de aparentemente uns 40 e poucos anos, boné surrado na cabeça e celular V3 encostado no ouvido. Ele falou como se quisesse que não tivesse parecido que ele falou especificamente conosco, mas fora. É possível que se você um dia passar pela Praça da Bandeira – e se você mora em Teresina, certamente passará – ou ao redor dela, receba uma abordagem parecida.
A Praça da Bandeira, localizada no coração de Teresina, pode ser considerada o próprio. Um órgão pulsante, cheio de vida, local de passagem de milhares de pessoas por dia, gente de todas as classes sociais, cores, credos e naturalidades. Rodeada por edificações notáveis – Shopping da Cidade; FUNDAC; Palácio da cidade (Prefeitura); Biblioteca Pública Abdias Neves; a sede do Ministério da Fazenda; Igreja Nossa Senhora do Amparo; Luxor Hotel Piauí; uma filial do Banco do Nordeste; um templo da Igreja Universal do Reino de Deus; o terminal central de ônibus; o Museu do Piauí e várias lojas – a praça é ponto de passagem praticamente obrigatório para quem vai ao centro de Teresina, e pode oferecer muito mais do que um primeiro olhar despercebido pode captar.
Antigamente as praças eram um lugar de descanso, passeio e entretenimento, uma espécie de refúgio arborizado em meio ao ambiente urbano, onde as pessoas podiam passear com a família e ver eventos, com a Praça da Bandeira não era diferente, porém, hoje em dia as coisas mudaram. A praça tem se tornado apenas um meio de passagem qualquer para a maioria das pessoas, ou até mesmo um lugar indesejado. Cristiane, de 20 anos, tem uma loja de roupas esportivas no primeiro andar do Shopping da Cidade, e, sentada num banquinho à beira da sacada, observa o movimento na praça. “Tenho medo de andar na praça, é perigoso. Já fui assaltada e várias conhecidas minhas também”, expõe Cristiane, que diz evitar até mesmo passar por dentro da praça.
Segundo Cristiane a praça é um local de prostituição camuflada – nem tanto, já que ela própria alega ter visto um casal engajado em atividade sexual em plena luz do dia no teatro de arena – e comércio ilegal, e os vendedores de celular e eletrônicos são em grande parte culpados pelo “envenenamento” da praça.
O verdadeiro envenenamento celular
O canto mais próximo à entrada traseira do Shopping da Cidade todos os dias se enche de rapazes e homens, a grande maioria deles com motos, vestidos em roupas casuais – camisetas leves, bermudões, camisas de times de futebol... –, que se instalam ali em algum ponto e expõem seus produtos ultratecnológicos sobre banquinhos ou caixotes. Os produtos vão de celulares de ponta àqueles players de música e vídeo com câmera fotográfica e trocentas utilidades extras. Uma boa parte das pessoas que não estão apenas de passagem vão à praça com a finalidade de adquirir algum desses produtos. O público inclui alguns policiais, jovens moças e até senhoras de idade. Pouquíssimos são os que se dirigem à Praça da Bandeira para ver os artistas de rua – figuras como o nômade palhaço Mulambinho, um misto de piadista e prestidigitador, que entre pequenos números ilusórios arenga com quem estiver a passar; e o grupo musical formado por equatorianos em roupas tradicionais indígenas – ou refrigerar-se sob a sombra das colossais árvores.
É uma pena que personagens tão coloridas não sejam tão prestigiadas quanto poderiam (e deveriam), devido ao receio dos pedestres em adentrar a praça. Nem mesmo a perene revoada de pombos, que parece estar ali desde o início dos tempos, consegue mais despertar a atenção de quem cruza a Praça da Bandeira.
Frente ao Palácio da Cidade um grupo de mototaxistas aguarda clientes, e entre eles também há alguns funcionários públicos em horário de descanso. Proseam para matar o tempo, observando a movimentação. Todos, claramente, sem muitas preocupações na cabeça, fruindo a conveniente sombra gerada pela árvore postada ao lado da fileira de motocicletas amarelas. Para todos eles a praça é um local de insegurança, onde opera uma discreta – não para quem está acostumado ou tem os olhos atentos – rede de prostituição e tráfico. Sim, provavelmente disso que o homem do celular achou que poderíamos estar precisando.
“A praça não mudou nada em 10 anos”, “Nunca entrei na praça”, são falas de alguns destes homens que diariamente trabalham defronte à Praça da Bandeira, mas não mantém nenhuma relação com ela além de medo ou indiferença. Algumas viagens de moto pela cidade, para ganhar uns trocados, e uma bela proteção do sol de Teresina são muito mais interessantes que a praça. Pra quê mesmo ir lá? “Só vejo coisas ruins.”.
Ainda há sujeitos “boa praça” nesta não tão boa praça
Mas nem tudo é tão decadente assim, há quem diga que a praça ainda sustenta aspectos positivos o suficiente para ser considerada um local digno de atenção e elogios. “A praça é beleza. Gosto de ver os pombos, os artistas, etc. É excelente.” Diz com uma voz rareada seu Juvenal, 53 anos, vendedor de bombons e vales-transporte, localizado no terminal de ônibus, que prefere ver as qualidades da Praça da Bandeira.
A beleza da praça também é percebida por Gilvane, de 28 anos, que atribui um valor especial ao local por ser um ambiente que evoca suas memórias de infância. Quando criança Gilvane passeava com o pai pela Praça da Bandeira. Hoje, sentada na arquibancada do teatro de arena, Gilvane gasta um tempo relaxando e conversando com uma amiga e a filha desta, enquanto a criança mordisca um pastelzinho, enfiada em seu vestido rosa, se metendo entre as fileiras da arquibancada, como uma menina travessa deve fazer. “Antigamente a praça era um lugar pra passear, meu pai vinha e trazia a gente pra cá. Hoje é só uma passagem. Só isso.”.